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  • José Amorim de Oliveira Júnior

Como superar um Vício

Somos viciados em SENSAÇÕES, não em substâncias. Compreender quais sensações buscamos é o caminho para encontrá-las em hábitos e práticas saudáveis.



Em dezembro de 2019 participei do Vipassana, um retiro de silêncio de dez dias, no Centro de Meditação Dhamma Saraṇa, em Santana de Parnaíba, a 45 quilômetros do Centro de São Paulo, uma jornada de autoconhecimento na qual não é permitido falar, trocar olhares, gestos e nenhuma forma de comunicação entre os participantes.


Achei curioso o ecumenismo do público, formado por pessoas de várias religiões: católicos, evangélicos, espíritos, budistas e alguns que não seguiam nenhuma religião, e que estavam em busca de desenvolvimento espiritual. Quanto a mim, digo que minha Religião é o “Amor”, o principal ensinamento que Cristo nos deixou.


Em meio a um lugar de natureza linda, na mata atlântica, esse retiro propicia o aprendizado de uma das mais antigas técnicas de meditação da Índia, ensinada por Buda há mais de 2.500 anos.


Vipassana significa “ver as coisas como elas realmente são” e é um convite à auto-observação, concentração, atenção plena e compreensão da impermanência, a natureza mutável de tudo.


O retiro me ajudou a aprofundar minha espiritualidade e compreender a natureza da impermanência, a ver e aceitar as coisas e as pessoas como elas são, e não do jeito que eu gostaria que fossem. Isso me trouxe muita serenidade.






Um dos aprendizados mais importantes que tive foi o de que “somos viciados em SENSAÇÕES, não em substâncias (bebidas alcoólicas, cocaína, maconha, cigarro, etc.)”.

Um dos maiores hipnoterapeutas ericksonianos do mundo, Stephen Paul Adler, ensina que o ser humano tem três necessidades primordiais e universais:

Ser VISTO;

Ser ESCUTADO;

Ser VALORIZADO.


Todos nós precisamos sentir, ter a sensação de sermos vistos, escutados, valorizados, que pertencemos a um grupo, que somos amados, acolhidos, que somos importante na vida de alguém.


Quando essas necessidades não são atendidas, principalmente na infância e na adolescência, período em que precisamos nos sentir cuidados, protegidos, é comum termos traumas ou bloqueios emocionais que podem atrapalhar nossa capacidade de criar vínculos saudáveis, ter uma visão equilibrada sobre nós, sobre as pessoas e sobre o mundo e faz com que gastemos parte da nossa vida buscando satisfazer a essa demanda emocional não resolvida.

Como psicoterapeuta atendo muitas pessoas que buscam nas adicções (ou vícios, como são popularmente conhecidos) suprir demandas relacionadas a essas três necessidades primordiais.


Como essas pessoas não conseguiram obter essas sensações de uma forma saudável, acabaram a encontrando em algum vício.


O vício funciona, nesse caso, como o que, em filosofia, chamamos de representação, que ocorre quando uma coisa assume o lugar de outra, representando-a, tendo uma correspondência com ela.



Como ajudar pessoas que estão com dificuldade de se livrar de um vício:

1) Valide a busca da pessoa pela SENSAÇÃO

Qual é a sensação que a pessoa busca no vício: alegria, paz, segurança, força, coragem, pertencimento? Ela tem o direito de buscar essa sensação. Acolha-a e ajude-a a encontrar maneiras de acessar a mesma sensação que buscava nas drogas, só que, agora, de forma saudável. Se precisar, conte com a ajuda de um psicoterapeuta, pois geralmente isso é necessário.


Após descobrir a sensação e compreender como a pessoa se estrutura existencialmente, podemos ajudá-la a encontrar maneiras de acessar a mesma sensação que buscava nas drogas, só que, agora, de forma autêntica, saudável. Isso pode ocorrer via emoções (fortalecimento do autocontrole, como lidar com gatilhos que disparam a adição, aumento da resiliência, da capacidade de enfrentamento de adversidades), ou via cognição (ressignificando o que for preciso) ou ainda de outras formas.


Existem vários caminhos, eles não são excludentes. Não há uma receita. Devemos respeitar a singularidade de cada pessoa. Ao compreender como ela “funciona” podemos ajudá-la a encontrar uma forma de dar vazão à sua necessidade, sem recorrer ao vício.

2) Entenda que a pessoa é mais do que o seu comportamento

Você pode não concordar com o comportamento (vício) e não aceitá-lo, mas ainda assim a pessoa merece ser aceita, pois ela é muito mais do que seus comportamentos. Não reduza a pessoa a um rótulo de “viciado”. Rotular a pessoa de viciada não irá ajudá-la. Somos seres humanos, realizamos algumas ações boas, outras nem tanto. Temos o direito de errar, e de aprender e somos mais do que nossos erros.


A Mudança de Hábitos é um dos pilares de enfrentamento do vício. Todo comportamento é aprendido e, portanto, pode ser mudado. Compreenda os gatilhos que disparam o vício e aprenda maneiras saudáveis de lidar com eles.


O que determina nossos hábitos são nossas capacidades, crenças, valores, nossa identidade, o sentimento de pertencimento a algo maior do que nós.

Muitas vezes o vício foi a “muleta” existencial usada para suportar algo. Antes de tirar essas muletas precisamos encontrar outra forma de suprir essa demanda.

3) Ajude a pessoa a criar uma identidade positiva

Muitas pessoas repetem um mantra: “eu SOU um viciado e sempre serei!” e trazem o vício para o nível da IDENTIDADE. As pessoas não nascem viciadas. Mesmo que haja predisposição genética, é necessário interações socioambientais para ativar o vício.

Ajude a pessoa a criar uma identidade positiva, em vez de incutir nela uma identidade negativa, de viciada.

4) Não caia na armadilha de ficar preso aos sintomas

É claro que uma crise de abstinência pode ser algo assustador, mas ela não é o ponto essencial na jornada para se livrar de um vício, pois mais do que se viciar na substância (bebida alcoólica, cocaína, maconha, etc.) ou em um comportamento compulsivo (jogo, sexo, compras, Internet, pornografia etc.) a pessoa se vicia em uma SENSAÇÃO.


Uma das principais causas de ineficiência de tratamentos de superação de vícios é que muitas vezes eles focam apenas na desintoxicação e em ajudar a pessoa a superar a crise de abstinência, isolando-a e medicando-a. A medicação, recomendada por um médico psiquiatra, a mudança de hábitos, tudo isso é importante, sem dúvida, mas é preciso ir além.


É preciso entender a motivação da pessoa: qual é a demanda que a pessoa buscou resolver com o vício? Conhecendo sua subjetividade, o que a estrutura, podemos ajudá-la a encontrar maneiras funcionais e saudáveis que a permitirá obter a mesma sensação que buscava no vício, só que, agora, de uma forma sustentável.

Sem isso, o tratamento geralmente é ineficaz, a pessoa pode ter várias recaídas.

Johann Hari, em sua palestra TED Everything you think you know about addiction is wrong relata que quase todas as coisas que nós pensamos sobre a adição são erradas, inclusive a ênfase na “dependência química”.


Para demonstrar sua tese, ele cita o que aconteceu na Guerra do Vietnã, onde 20% das tropas norte-americanas usavam heroína e havia um medo de que quando a guerra acabasse os soldados retornariam para casa viciados. Porém, pesquisas demonstraram que assim que terminou a guerra os soldados que usavam heroína no Vietnã voltaram para suas casas, nos EUA e a maioria deles não tiveram síndrome de abstinência e 95% simplesmente pararam de usar heroína. Se a ideia da dependência química fosse totalmente verdadeira, isso não faria sentido.


Vários pesquisadores, como o psicólogo Bruce Alexander, encaram a adição como um esforço que a pessoa faz para se adaptar ao ambiente onde vive. Em vez de vício, talvez o melhor fosse chamar isso de “vínculo”, a necessidade natural do ser humano de buscar a SENSAÇÃO de se conectar uns com os outros. Quando não conseguem fazer isso, se conectam com algo que dá um senso de alívio (jogos, pornografia, cocaína, maconha, comida, bebida, o que for), porque é da nossa natureza nos conectarmos.


Os soldados norte-americanos, ao retornarem para suas casas, não se tornaram viciados, pois eles voltaram a ter vínculos, conexões, trabalhar, estudar, ter relacionamentos positivos, se sentirem vistos, amados, acolhidos, valorizados, voltaram a se conectar com sentidos e sensações que eram importantes para eles.


Johann Hari finaliza a sua palestra TED dizendo que o oposto da adição não é a sobriedade: “O OPOSTO DA ADIÇÃO É CONEXÃO!”


Ajudamos as pessoas que querem superar algum vício quando nos colocamos como apoio para que elas possam se conectar com as SENSAÇÕES que são importantes para elas: amor, aceitação, sentido da vida, ser visto, valorizado, ou outras sensações que são fundamentais para ela, na sua singularidade.


E você, conhece alguém que sofre por estar dominado por algum vício? Conhece alguma família que sofre por ver um parente querido ter sua saúde drenada por um vício? Se sim, compartilhe com ela esse conteúdo, se acreditar que pode ser útil.


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