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  • José Amorim de Oliveira Júnior

Respeitar o tempo do outro

A desafiadora arte de saber o tempo certo com que o outro e nós mesmos possamos nos desenvolver

Um homem, certo dia, viu surgir uma pequena abertura num casulo. Sentou-se perto do local onde o casulo se apoiava e ficou a observar o que iria acontecer, como é que a lagarta conseguiria sair por um orifício tão miúdo. Mas logo lhe pareceu que ela havia parado de fazer qualquer progresso, como se tivesse feito todo o esforço possível e agora não conseguisse mais prosseguir.


Ele resolveu então ajuda-la: pegou uma tesoura e rompeu o restante do casulo. A borboleta pôde sair com toda a facilidade... mas seu corpo estava murcho; além disso, era pequena e tinha as asas amassadas.


O homem continuou a observá-la porque esperava que, a qualquer momento, as asas dela se abrissem e se estendessem para serem capazes de suportar o corpo que iria se firmar a tempo. Nada aconteceu! Na verdade a borboleta passou o restante de sua vida rastejando com um corpo murcho e asas encolhidas. Nunca foi capaz de voar.


O que o homem em sua gentileza e vontade de ajudar não compreendia era que o casulo apertado e o esforço necessário à borboleta para passar através da pequena abertura eram o modo pelo qual Deus fazia com que o fluido do corpo daquele pequenino inseto circulasse até suas asas para que ela ficasse pronta para voar assim que se livrasse daquele invólucro.


Algumas vezes o esforço é justamente aquilo de que precisamos em nossa vida.


Se Deus nos permitisse passar através da existência sem quaisquer obstáculos, Ele nos condenaria a uma vida atrofiada. Não iríamos ser tão fortes como poderíamos ter sido. Nunca poderíamos alçar voo.


Às vezes, na nossa Jornada existencial nos deparamos com pessoas que são muito lentas para romper os casulos que precisam ser rompidos para que elas cresçam e se transformem em pessoas melhores, profissionais melhores, mães melhores, pais melhores, irmãos melhores...


Às vezes essas pessoas fazem parte da nossa família, às vezes são amigos, colegas de trabalho ou mesmo pessoas com quem temos pouca proximidade.


Apesar de alguns de nós acharem que é um gesto de Amor ou de Caridade ou Bondade ir lá e romper o casulo, pela outra pessoa, na verdade isso é um gesto de desrespeito, de arrogância, pois quando fazemos isso estamos dando um recado para o outro: “você é incapaz”, “você não consegue”, “deixa que eu faço por você, porque eu sou melhor do que você”! Por mais doloroso que isso possa ser, é exatamente essa a mensagem que estamos dando.


O pior de tudo é que ao impedir que a outra pessoa rompa o seu casulo, ao ir lá e “fazer por ela”, ela se sente ferida e incomodada, e não, para a nossa surpresa, agradecida, como esperávamos, e com toda a razão, pois nossa interferência (muitas vezes sem mesmo que ela peça) faz com que ela se sinta, mais uma vez, incapaz, incompetente, insuficiente!


E nós nos sobrecarregamos mais uma vez, nossa vitalidade vai sendo minada, pois estamos usando nossa energia para viver a vida do outro, para resolver as adversidades que devem ser vividas pela outra pessoa.


Se nós tivermos humildade, vamos lembrar que foram exatamente as ADVERSIDADES, as situações desafiadoras que enfrentamos na nossa vida que nos fez CRESCER, nos trouxe MATURIDADE. E agora, o que estamos fazendo, ao romper o casulo do outro? Estamos impedindo que ELE cresça, se torne uma pessoa madura.


A justificativa é sempre algo do tipo: “mas eu não quero que ele sofra...”; “ele está demorando demais...”; “ele está dando voltas, enquanto poderia ir direto na solução”...


Cabe a nós, quando nos é permitido, orientar e, bondosamente, auxiliar. Mas, da mesma forma que acontece numa relação sexual, quando alguém ESTUPRA o outro, quando não tem o CONSENTIMENTO do outro, também cometemos um ESTUPRO EMOCIONAL quando violamos a outra pessoa, quando entramos sem ser convidado, quando interferimos sem a permissão do outro.


Se pergunte: o que posso aprender, convivendo com pessoas que demoram a romper o seu casulo? O que posso desenvolver EM MIM, para poder conviver em paz e harmonia com tais seres? Talvez a resposta seja PACIÊNCIA; RESPEITAR O TEMPO DO OUTRO; ENTENDER QUE O SOFRIMENTO FAZ PARTE DA VIDA E QUE EU TAMBÉM SOFRI; ENTENDER QUE AS PESSOAS SÃO DIFERENTES DE MIM...


Temos muitas opções: permanecer aprendendo, evoluindo, enquanto aguardamos ou, após muito tempo convivendo com tais pessoas, que não rompe o seu casulo, podemos, também, explicar que não vamos limitar nossa vida por causa da limitação dela, não vamos permitir que ela nos perturbe, nos deixe estagnados.


Em último caso, após pedirmos que elas façam a mudança que gostaríamos que elas fizessem, se não conseguirmos mais lidar com a espera, se a espera estiver nos destruindo, existencialmente, temos o direito de nos afastar, mas que esse afastamento seja um gesto de Bondade, para dar ao outro o tempo que ele precisa, com respeito, sem julgamento, sem achar que somos melhores do que ele, sem achar que ele não conseguirá, sem achar que ele é ruim, por não enxergar as coisas como nós gostamos. Afinal, se queremos tanto que a pessoa rompa o seu casulo, é porque NOS IMPORTAMOS COM ELA.


Esse texto te traz algum insight, alguma compreensão, ele conecta algo em você?


Fonte: adaptação do texto “Para que minha vida se transforme”, da autora Maria Salette e Wilma Ruggeri (Editora Verus)

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